Recortes de imprensa

Primum vivere

Público, 23 de Janeiro de 2007

Maria Luísa Couto Soares

A propósito de "Primeiro filosofar", de Eduardo Prado Coelho, em 17-01-07: "Primeiro viver, depois filosofar", diziam os antigos. Primeiro filosofar, replica Eduardo Prado Coelho no seu pertinente artigo de 17 de Janeiro.

"No tempo actual, de facto, não há lugar nem tempo para o pensamento, porque este não tem consequências práticas imediatas." Não tem? A ausência do pensar tem. O "processo de barbarização" a que se refere Eduardo Prado Coelho mostra-o bem. A barbárie é a corrida apressada para os fins imediatos, os que aparentemente poderiam resolver os problemas sociais, económicos, o desemprego, a marginalização por falta de competências. Será por isso que se pretende agora eliminar (praticamente) a Filosofia? Porque não serve para nada? E para que serve a literatura, a pintura, a música? Serão meros adereços dispensáveis na bagagem do homem moderno? Por este caminho eliminaremos toda a cultura...

O ensino tende cada vez mais a reduzir-se a uma espécie de adestramento adequado para o desempenho particular de determinadas funções. Só que o homem não é de facto um mero animal domesticável a quem se ensina umas certas habilidades. Queiramos quer não, questiona-se, espanta-se, reflecte por si, inventa, cria. E aí está o seu principal potencial que o tornará valioso para a sociedade.

Vale aqui o conhecido provérbio chinês: ao esfomeado, se lhe dermos um peixe, matamos-lhe a fome de imediato, mas se o ensinarmos a pescar, nunca mais terá fome... Para quê distribuir tantos peixes miúdos se podemos oferecer uma barca, uma rede ou uma cana de pesca?

Que tem isso a ver com o ensino da Filosofia? Alguns pedagogos consideram que certas áreas devem ser preservadas no plano educativo pelas repercussões que têm em todas as outras: são áreas, por assim dizer, meta-aplicáveis porque de facto preparam o indivíduo para adquirir uma grande variedade de competências. É o caso da língua, o Português, da Matemática e da Filosofia. Arte de pensar, arte da vida... a preparação filosófica é essencial para os políticos, gestores, juristas, empresários, médicos, artistas.

Há dois anos, iniciámos um Curso Complementar de Filosofia para todo o tipo de pessoas de todas as áreas e de todas as profissões que tivessem interesse, gosto, apetência. O resultado tem sido animador: o curso tem sido procurado por bastante gente. Porquê? Sentem a falta de uma formação e infomação filosófica básica, geral, não só para completar a sua formação profissional, mas sobretudo porque isso os ensina a pensar e a viver melhor. Numa altura destas, em que se levantam tantos problemas que requerem uma preparação ética e filosófica, será uma medida acertada remeter o ensino da Filosofia para o lugar de uma disciplina meramente opcional e portanto dispensável? Parece ser realmente desastrosa. Como tirar ao pescador a sua barca e a sua rede e consolá-lo com alguma sardinha miúda...