Recortes de imprensa

Para que serve a filosofia?

Público, 16 de Dezembro de 2006

Lucinda Canelas

A filosofia está a desaparecer dos currículos e isso compromete a formação das pessoas. Deixar que a disciplina seja progressivamente apagada limita o acesso dos alunos a um instrumento de conhecimento que ensina a pensar e a olhar, defendem os que se opõem à eliminação do exame nacional de filosofia para o 10.º e 11.º anos, determinada por um decreto-lei de Fevereiro deste ano.

Para debater a relevância da filosofia na sociedade de hoje, a filósofa Maria Filomena Molder reuniu ontem na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, uma série de especialistas em várias áreas. Rosa Maria Perez (antropóloga), Fernanda Palma (direito), Nuno Crato (matemática), João Lobo Antunes (medicina), Carlos Fiolhais (física) e José Gil (filosofia) falaram sobre as suas experiências com a filosofia e sobre o carácter transversal da disciplina. O debate quis também "chamar a atenção para as consequências da diminuição do peso institucional da filosofia", disse Molder, referindo-se à medida "puramente administrativa" do Ministério da Educação, "cujos efeitos não foram devidamente avaliados, sobretudo no que diz respeito à articulação entre o secundário e o ensino superior".

O facto de os exames nacionais de 10.º e 11.º anos deixarem de existir em 2008 e de a disciplina ser opcional no 12.º ano faz com que menos alunos a olhem como uma opção de formação universitária, o que afecta a investigação e a qualidade dos filósofos, acrescentou Molder.

A filosofia e a arte de morrer

Para os não-filósofos que estiveram no debate, a importância da filosofia é muito mais quotidiana do que académica, embora a sua manutenção nos currículos não deva ser posta em causa.

Lobo Antunes, neurocirurgião e autor de livros como Um Modo de Ser, começou a interessar-se pela filosofia com três obras de Paul Foulquié, mas foi com o filósofo português Fernando Gil que a curiosidade se intensificou. "O Fernando Gil escreveu que "a filosofia é um acto de inocência porque interroga o admirável do mundo"", lembrou Lobo Antunes, para quem é impossível conceber a medicina sem a filosofia e a poesia: "A poesia ensinou-me a apurar o rigor no uso das palavras porque no poema, tal como no genoma, basta uma palavra para que saia monstruoso, perro, coxo. A filosofia permite-me interrogar o que de admirável há no sofrimento e, para citar [Michel de] Montaigne, permite aprender e ensinar a morrer. Há na filosofia uma ética da esperança e um desafio à alegria de pensar."

Tal como Lobo Antunes, o matemático Nuno Crato e o físico Carlos Fiolhais consideram um "erro grave" o desinvestimento no ensino da filosofia. Para o primeiro, ela forma com a matemática (raciocínio lógico, quantitativo e qualitativo) e o português (ler, dialogar, interpretar) o grupo das "três áreas fundamentais na formação do cidadão". Para o segundo é um instrumento para "ensinar a pensar bem".

O "direito à filosofia"

"Fui para a física porque achei que ela me escondia qualquer coisa", disse Fiolhais. "Podia ter escolhido a filosofia, que formula questões sobre tudo. A física faz menos perguntas e é mais fácil." A ligação entre as duas disciplinas sempre foi evidente — vem de Kant, que começou como físico, a primeira ideia de galáxia, explicou. "Ainda que de maneiras diferentes, a física e a filosofia preocupam-se com o indivíduo, pensam nele. Mesmo os grandes computadores servem para resolver os problemas humanos."

Fernanda Palma, professora da Faculdade de Direito de Lisboa e juíza do Tribunal Constitucional, introduziu no debate a questão do "direito à filosofia", definindo-o, a partir do filósofo francês Jacques Derrida, como "o direito a pensar as coisas até ao fim". Para a jurista, a filosofia continua a ser central porque o direito a ela está relacionado com "o dever da sociedade em garantir a liberdade de pensamento".

A antropóloga Rosa Maria Perez recorreu a uma das suas primeiras experiências de campo na Índia para falar da importância da filosofia na observação de outras culturas e na desconstrução de processos cognitivos.

Para fechar o debate, o filósofo José Gil sublinhou o "laço profundo" que há entre o acto de pensar e a filosofia e responsabilizou a "sociedade da opinião" — a opinião é o principal inimigo da filosofia, disse, porque tem certezas e não dúvidas — pelo progressivo desaparecimento da disciplina. "Quando uma criança de quatro anos pergunta porque é que a árvore se chama árvore está a filosofar, só que não sabe."

José Gil e Filomena Molder querem agora passar da reflexão aos actos e garantem que vão procurar mobilizar o meio da filosofia para reivindicar alterações na política do Ministério da Educação.